Dica nº 10 - Sobre o ato de escrever

11/12/2017 - 14:00

SOBRE O ATO DE ESCREVER

É fácil escrever? O que precisamos fazer para escrever bem? Leiam as reflexões a seguir sobre o ato de escrever e tirem suas conclusões.

1o –  Escrever é uma habilidade que pode ser desenvolvida e não um dom que poucas pessoas têm.

→ Há fatores que determinam nosso grau de familiaridade com a escrita, tais como:

a) o modo como aprendemos a escrever;

b) a importância que o texto escrito tem para nós e para nosso grupo social;

c) a intensidade do convívio estabelecido;

d) a frequência com que escrevemos.

 

2o – Escrever é um ato que exige empenho e trabalho e não um fenômeno espontâneo.

→ Escrever é uma das atividades mais complexas que o homem pode realizar, pois impõe rigorosas exigências à memória e ao raciocínio. A agilidade mental é imprescindível para que todos os aspectos envolvidos na escrita sejam articulados, coordenados, harmonizados de forma que o texto seja bem-sucedido.

→ É necessário que o redator utilize simultaneamente seus conhecimentos relativos ao assunto que quer tratar, ao gênero adequado, à situação em que o texto é produzido, aos possíveis leitores, à língua e suas possibilidades estilísticas. Portanto, escrever não é fácil e, principalmente, escrever é incompatível com a preguiça.

 

3o – Escrever exige estudo sério e não uma competência que se forma com algumas "dicas".

→ Fórmulas pré-fabricadas de textos e "dicas" isoladas apenas contribuem para a montagem de um texto defeituoso, truncado, artificial, em que a voz do autor se anula para dar lugar a clichês, chavões, frases feitas e pensamentos alheios.

→ A autoria vem das escolhas pessoais dentro das possibilidades da língua e do gênero. Escrever bem é o resultado de um percurso constituído de muita prática, muita reflexão e muita leitura.

→ Uma redação por mês, alguns exercícios esporádicos de produção de pequenos trechos não formam um bom redator. É necessário escrever sempre, escrever todos os dias, escrever sobre assuntos diversos, escrever com diversos objetivos, escrever em diversas situações.

 

4o –  Escrever é uma prática que se articula com a prática da leitura.

→ É improvável que um mau leitor chegue a escrever com desenvoltura. É pela leitura que assimilamos as estruturas próprias da língua escrita.

→ Além de ser imprescindível como instrumento de consolidação dos conhecimentos a respeito da língua e dos tipos de texto, a leitura é um propulsor do desenvolvimento das habilidades cognitivas. Envolve tantos procedimentos intelectuais e exige tantas operações mentais que leva o bom leitor a adquirir maior agilidade de raciocínio.

→ Há ainda a considerar que a leitura é uma das formas mais eficientes de acesso à informação. Seu exercício intenso e constante promove a análise e a reflexão sobre os acontecimentos, tornando a pessoa mais crítica e mais resistente à dominação ideológica.

 

5o – Escrever é necessário no mundo moderno.

→ Hoje tudo está muito automatizado e as relações humanas por intermédio da escrita estão reduzidas ao mínimo (mensagens pelo celular).

→ Paradoxalmente, o complexo mundo contemporâneo está cada vez mais exigente em relação à escrita. Tudo o que somos, temos, realizamos ou desejamos realizar deve ser legitimado pela palavra escrita. Nossa habilidade de escrever é exigida, investigada, medida, avaliada, sempre que nos submetemos a qualquer processo seletivo em sociedade.

 

6o – Escrever é um ato vinculado a práticas sociais.

→ Todo ato de escrita pertence a uma prática social. Não se escreve por escrever. A escrita tem um sentido e uma função.

→ Saber escrever é também compartilhar práticas sociais de diversas naturezas que a sociedade vem construindo ao longo de sua história. Essas práticas de comunicação em sociedade se configuram em gêneros de texto específicos a situações determinadas. Para cada situação, objetivo, desejo, necessidade temos à nossa disposição um acervo de textos apropriados.

→ O produtor de texto não apenas precisa ter conhecimentos sobre as configurações dos diversos gêneros, mas também saber quando cada um deles é adequado, em que momento e de que modo deve utilizá-los. Um relatório é próprio para prestar contas de uma pesquisa científica, de uma investigação, de uma tarefa profissional, mas não serve para contar uma viagem de férias para os amigos, por exemplo.

(GARCEZ, Lucília H. do Carmo. Técnica de redação: o que é preciso saber para bem escrever. São Paulo, Martins Fontes, 2004, 2a. edição)