Dica nº 7 - Paralelismo semântico

26/10/2017 - 14:26

SOBRE O PARALELISMO SEMÂNTICO

A nossa "dica" nº 1, disponibilizada em 24/07, foi sobre o paralelismo sintático. Naquela altura, lembramos que o paralelismo sintático fundamenta-se no princípio de que só devem ser coordenados segmentos da mesma natureza, ou seja, só devem ligadas pela conjunção E palavras da mesma classe gramatical, somente orações desenvolvidas, somente orações reduzidas.

Se você já esqueceu o assunto, sugiro que o releia. Continua disponível nas nossas "dicas".

Semântica é um ramo da linguística (ciência da linguagem) que estuda o significado das palavras, frases e textos de uma língua.

Nesta "dica" vamos tratar do paralelismo semântico, que consiste na correlação de sentido entre estruturas coordenadas, ligadas pela conjunção E.

O paralelismo semântico deve garantir uma relação lógica no texto, proveniente de palavras do mesmo campo semântico ou ideias que se equivalham.

Para facilitar sua compreensão, nas frases a seguir NÃO foi atendido o princípio do paralelismo semântico, porque foram colocadas em paralelo (ligadas pela conjunção E) palavras que não guardam correlação de sentido entre si:

  • a) Ele é um rapaz simpático e bom eletricista.
  • b) Gosto de frutas e de livros.
  • c)  Trocava de namorada como trocava de blusa.
  • d)  Este ano houve uma guerra entre Israel e os libaneses. (nome de um país e um gentílico)
  • e)  O problema da droga é mais grave em Porto Alegre e em Curitiba do que em Florianópolis e no Espírito Santo(Espírito Santo é nome de estado entre nomes de cidades)

 

Para atender ao paralelismo semântico, as frases d e e poderiam ser   escritas da seguinte maneira:

  • d.1) No ano passado houve uma guerra entre Israel e o Líbano. (apenas nomes de países)

ou

  • d.2) No ano passado houve uma guerra entre israelenses e libaneses. (apenas pessoas nascidas nos países – gentílicos)
  •  
  • e.1) O problema da droga é mais grave no Rio Grande do Sul e no Paraná do que em Santa Catarina e no Espírito Santo. (comparação apenas entre estados)

ou

  • e.2) O problema da droga é mais grave em Porto Alegre e Curitiba do que em Florianópolis e Vitória. (comparação apenas entre cidades)

Na língua literária, verifica-se por vezes a ruptura do paralelismo semântico, com belos e interessantes efeitos estilísticos.

 

Observe o que escreveu Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas:

  • a) "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos."
  • b) "Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcela."

Como se pode facilmente verificar, houve uma ruptura na relação semântica:

  • a)         quinze meses / onze contos de réis (tempo e valor monetário);
  • b)        Rocio Grande / coração de Marcela (lugar e órgão do corpo humano).

 

Nesses casos, constata-se que a construção foi intencional, não decorreu de uma falha. Foi proposital, com o objetivo de produzir ironia ou humor.

 

paralelismo semântico estaria preservado, se o autor tivesse escrito, com sério prejuízo da criatividade literária:

  • a.1) Marcela amou-me durante quinze meses e onze dias. (apenas referência a tempo)
  • b.1) Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao centro da cidade. (apenas referência a lugar)

O mesmo Machado de Assis ainda nos brindou com este engenhoso efeito de estilo em D. Casmurro:

  •  "um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu."