Dica nº 9 - Sobre a ambiguidade

27/11/2017 - 00:16

SOBRE A AMBIGUIDADE

ambiguidade ocorre quando a frase apresenta mais de um sentido. Também é chamada de anfibologia.

Quantas amizades rompidas, relações estremecidas, sociedades desfeitas, amores sublimados e ódios intensificados, guerras declaradas por causa de frases mal-entendidas, duplicidades de sentido e significados nas entrelinhas (intencionais ou não)!!!

Talvez esteja exagerando, mas há pessoas que usam o domínio que têm da linguagem para o bem e outras para o mal; para unir, agregar, incutir valores ou disseminar mentiras e ideologias espúrias que levam à desarmonia e à decadência social.

Normalmente a ambiguidade é considerada um defeito do texto, por levar a mais de uma interpretação da frase. Neste caso, provoca confusões, abre caminho para ilações, enfraquece convicções.

Pelo que até aqui se expôs, já concluímos que NÃO há lugar nos textos produzidos na administração pública para a ambiguidade, para a multiplicidade significativa, em face dos prejuízos que poderiam causar a quem por eles precisa pautar-se para decidir, estabelecer diretrizes, projetar o futuro.

Portanto, tenhamos cuidado com a produção de frases, em nossa atividade profissional, que possibilitem mais de um entendimento, ou seja, que contenham ambiguidade.

Atenção! Elabore seus textos de modo a evitar a ocorrência de uma dupla interpretação.

Vamos apresentar os casos mais comuns em que ocorre a ambiguidade:

1.    USO DO PRONOME POSSESSIVO DE TERCEIRA PESSOA: SEUSUA

Exemplos:

a) Aquela velha senhora encontrou o garotinho em sua casa. (casa de quem? dele ou dela?)

b) Carolina disse à irmã que seu namorado a estava esperando. (namorado de quem? de Carolina ou da irmã?)

Obs. No exemplo a),  com referência a termos de gêneros diferentes, a ambiguidade se desfaz, substituindo-se o pronome possessivo sua por dele ou dela, conforme se refira ao garotinho ou àquela velha senhora.

No exemplo b), a informação teria que ser dada de outra maneira, como: Carolina disse à irmã que Fulano, seu namorado, a estava esperando.

 

2.    USO DO PRONOME RELATIVO QUE, O QUAL, A QUAL

Exemplos:

a) Gabriela pegou o estojo vazio da aliança que estava sobre a cama. (O que estava sobre a cama? O estojo ou a aliança? o qual ou a qual?)

b) "Dolores Duran era uma glória da língua portuguesa, sem a qual o samba não existiria." (Caetano Veloso. O GLOBO, 07.04.13) – a qual: Dolores Duran ou a língua portuguesa?

Obs. No exemplo a), a ambiguidade se desfaz, substituindo-se o pronome relativo que por o qual ou a qual, conforme se refira ao estojo ou à aliança.

 

No exemplo b), para desfazer a ambiguidade, seria necessário substituir o pronome relativo a qual por essa artista ou esse idioma, conforme o sentido que se pretende definir.

3.    COLOCAÇÃO DO ADJUNTO ADVERBIAL

Exemplo:

Crianças que recebem leite materno frequentemente são mais sadias. (que frequentemente recebem leite materno ou frequentemente são mais sadias?)

Obs. Para desfazer a ambiguidade, o advérbio teria que ser colocado na frase, de acordo com o sentido que se deseja:

a) Crianças que frequentemente recebem leite materno são mais sadias.

b) Crianças que recebem leite materno são frequentemente mais sadias.

4.    ORDEM DAS PALAVRAS NA FRASE

 

Exemplos:

a) Vi que poderia ajudar pacientes com câncer de alguma forma(VEJA RIO, 23.08.17. pág. 32)

Obs. Melhor seria escrever:

a.1) Vi que de alguma forma poderia ajudar pacientes com câncer.

ou

a.2) Vi que poderia de alguma forma ajudar pacientes com câncer.

b) Num tribunal, a testemunha afirmou:

           - Eu vi o desmoronamento do barracão.

 

O juiz ficou em dúvida quanto a duas interpretações possíveis do depoimento.

 

b.1) De dentro do barracão eu assisti ao desmoronamento de algum prédio.

ou

b.2) Eu estava em algum lugar e de lá vi o barracão desabar.

5.    EMPREGO DE VÍRGULAS

Exemplos:

a) As associações de agricultores da região que integravam o projeto foram informadas sobre variedades híbridas.

Comentário: sem vírgulas: apenas as associações de agricultores da região que integravam o projeto foram informadas; colocando "que integravam o projeto" entre vírgulas, todas as associações de agricultores da região integravam o projeto e todas foram informadas.

b) Os funcionários que trabalharam bastante foram recompensados com um reajuste salarial.

Comentário: sem vírgulas: apenas os funcionários que trabalharam bastante foram recompensados; colocando "que trabalharam bastante" entre vírgulas, todos os funcionários trabalharam bastante e todos foram recompensados.

ambiguidade, todavia, não é apenas um defeito do texto. O duplo sentido pode ser empregado intencionalmente como um poderoso recurso para despertar o interesse do público-alvo.

1.  NA LINGUAGEM JORNALÍSTICA

Exemplos:

a) "Fulano foi acusado de matar um empresário e a filha dele." (notícia de jornal)

Comentário: "a filha dele" significa a filha do assassino ou do empresário?

b) "Presos por crime em Bragança Paulista são transferidos." (notícia de jornal)

Comentário: o crime foi cometido em Bragança Paulista ou os presos são transferidos em Bragança Paulista?

c) "A portaria proíbe ainda menores de irem a motéis e rodeios sem a companhia ou autorização dos pais." (comentário de legislação)

Comentário: para desfazer a ambiguidade é necessário alterar a ordem das palavras na frase:

c.1) A portaria proíbe ainda menores de irem a rodeios sem a companhia ou autorização dos pais e a motéis.

d) Em dezembro de 1994, com a morte do grande compositor Tom Jobim, um jornal de São Paulo publicou o título: "Brasil perde o tom".

e) "Nós queremos ser muito rigorosos com a porcaria da população." (Prefeito Eduardo Paes, no RJ-TV, sobre mudanças na COMLURB)

f) A um coronel que se queixava da vida de quartel, um jornalista disse:

- E o senhor não sabe como é militar na imprensa. (verbo ou substantivo?)

2. EM TEXTOS PUBLICITÁRIOS

Exemplos:

a) "Seja legal, não compre CD pirata."

b) "Gasolina Petrobras. Sonho de consumo de qualquer carro."

c) "O Globo. Muito mais que o papel de um jornal."

d) "SKY. Você na frente sempre."

e) "No metrô a cidadania sempre tem lugar." (sobre lugares destinados a pessoas com necessidades especiais)

f) "Rio. Todos se encontram no MAR." (Museu de Arte do Rio)

 

3. EM TEXTOS HUMORÍSTICOS

Exemplos:

a) O bebum entra no consultório e o médico diz:

    - Eu não atendo bêbado.

    O bêbado:

    - Quando o senhor estiver bom eu volto.

b) - Não deixe sua cadela entrar na minha casa de novo. Ela está cheia de pulga.

     - Diana, não entre nessa casa de novo. Ela está cheia de pulga.

c) - Doutor, já quebrei o braço em vários lugares.

    - Se eu fosse o senhor, não voltava mais pra esses lugares.